amarelo

Bruna Moreno
4 min readJun 18, 2018

--

Quando pequena, não via diferença alguma entre amarelo e todas as outras cores. Logicamente, como toda menina, sempre preferi o rosa. Fui crescendo e, de uma forma ou de outra, na minha adolescência passei a detestar a cor amarelo tendo-na como a cor que eu menos gostava. Da mesma forma, perdi o encanto pelo rosa, talvez por tê-lo enjoado, talvez por simplesmente não ser minha cor predileta. O rosa se tornou comum, usado por todas as meninas, sempre. E o comum nunca teve graça alguma na minha concepção do que era melhor pra mim e do que combinava mais comigo. Como disse, isso tudo foi durante a minha adolescência. O rosa desapareceu do meu guarda-roupa, da mesma forma que o amarelo, nunca tão presente quanto a outra cor, também sumiu. Mas faz algum tempo, possivelmente não muito significativo, que eu notei que não odeio mais amarelo, e não detesto mais o rosa.

Passei anos da minha vida achando que encontraria minha alma gêmea quando ele simplesmente me completasse e fosse igual a mim… e por um bom tempo acreditei ter encontrado essa pessoa. Fiquei tempo suficiente pra provar o fato de que ela era realmente a minha outra metade. Que se houvesse sido feita duas de mim, então ele seria a parte B com um “defeitinho de fabricação” que o distingue como homem. O incrível de tudo é que com tantos motivos e opções para descrever o porquê de sermos tão parecidos, quando me vinha o momento de dizê-los para outras pessoas, a única possibilidade digna o bastante era destacar como ambos sempre detestamos a cor amarela. E que exemplo mais tolo. Eu escolhi uma pessoa, que detestava uma cor, assim como eu. Essa pessoa era, portanto, igual a mim, somente por não conseguir suportar nada que fosse da cor amarelo, ou amarelado.

Tão fácil intensificar uma risada forçada quando alguma coisa não é do seu interesse, mesmo que tenha perguntado, para rir de uma explicação idiota de que duas pessoas são iguais por detestarem uma cor tão adorada por outros. Tão fácil achar essa explicação idiota, que até eu mesma a acharia, se fosse eu a desinteressada fazendo as perguntas. Mas não, tem muita coisa por trás disso, e vou admitir que só percebi agora. Não é detestarmos uma cor, é mais profundo. É o fato de todas as outras semelhanças terem sido tão óbvias que a total novidade a contar sempre fora uma cor em comum pra não gostar.

Os sentimentos, atitudes e outras preferências gerais eram simplesmente muito óbvias. O amarelo era inconscientemente novo. Nunca ninguém iria dizer que achou sua “tampa da panela” por seu amor não gostar de laranja, por exemplo, por ambos preferirem a cor da mobília da casa que fossem ter azul, torcendo pro mesmo time vermelho. Uma coisa tão simples, tão crua, tão comum e direta… Isso era o “must”, e nem nós mesmo notávamos. E, com tantas semelhanças, a única que sempre me veio à cabeça foi “nós dois não gostamos de amarelo, por exemplo!!”, e mesmo acreditando na retardadisse da comparação, nunca consegui proferir essa frase sem um quê de exaltação.

Mas, como já destacado anteriormente, há um bom tempo que eu perdi a raiva por roupas cor de rosa e voltei a usa-las, assim como já faz algum tempo que eu não detesto mais o amarelo. Agora o amarelo representa uma saudade que eu não havia notado, me lembra coisas boas em algo que eu sempre achei longe de bom, sempre achei aquela cor simplesmente repugnante, mesmo que sem motivo algum pra isso. Agora eu parcialmente gosto de amarelo, uso amarelo de vez em quando, aprendi que essa cor me traz uma lembrança. E essa lembrança incrivelmente vem logo do que eu nunca pensei ter a menor importância. Porque, convenhamos: Quem no mundo levaria um preferência de cores muito a sério em um relacionamento? Ninguém, e assim eu não o fiz também.

Não sei explicar, mas de alguma forma, o fato de eu detestar essa cor sumiu pela necessidade do que ela me trazia, dos comentários negativos em relação a ela, e tudo mais. Essa cor, agora, me traz indiretamente o que eu nunca pensei querer ter. Inclusive, por não gostar da cor, com essa implicância infantil que eu sempre tivera, nunca prestei atenção na beleza de uma música com o mesmo nome, e agora essa música me diz muito.

Mas a vida é assim, as pessoas vêm e vão tão rapidamente quanto se poderia dizer pra que elas não nos deixassem. E ser deixada é uma coisa que eu entendo perfeitamente como funciona; ser deixada por amigas que nunca poderiam ter sido chamadas de tal forma. E, de alguma forma, sei muito melhor como ser deixada por mim mesma, como é me abandonar, me deixar de lado.

Os acontecimentos foram colocados de lado, os sentimentos não. Memórias são sempre muito bem cobertas, agora, a mágoa a gente não consegue simplesmente empacotar e enviar via Sedex pro Camboja, esperando que alguém abra e acabe com ela sem deixar vestígios. Enfim, a tarde mexeu comigo, mas eu esqueci. Passei o dia inteiro ouvindo uma música que há muito não ouvia, pondo pra repetir, somente pra poder acompanhar a letra em inglês, que eu já quase decorei, como tantas outras. A música, até de noite, não tinha nada a ver com a minha vida em si, mas por algum motivo, sempre me emocionou, de alguma forma, mesmo que discreta.

Hoje enfim lembrei perfeitamente dessa imagem que me passou uma certa incerteza de felicidade, que me fez duvidar verdadeiramente, enquanto dizia o quão bem comigo estava. De qualquer forma, ainda acho que certas mágoas nunca ficam “tudo bem”, e, se forem embora, demoram bem mais que um ano, com certeza. Espero, sinceramente, que não nos vejamos e que não nos falemos, porque eu verdadeiramente não sinto falta dos momentos ruins. Se sentir, posso muito bem disfarça-la, como fiz até agora.

--

--

Bruna Moreno
Bruna Moreno

Written by Bruna Moreno

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento. Escrever é preciso. (Clarice Lispector)

No responses yet