aquilo que você não sabe

Bruna Moreno
3 min readJun 18, 2018

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Eu escuto muitas opiniões sobre mim. Na maioria das vezes, escuto sobre como eu sou 100% confiante, sobre como eu não devo ter nenhum problema de auto estima, como eu não devo ter problemas reais já que estou sempre feliz, sempre alegre… isso é tão errado.

Tem muito mais sobre uma pessoa do que você enxerga. E o que você não sabe é que eu sofro de ansiedade e ataques de pânico desde que tinha 17 anos de idade. Isso pode até ser um pouco desconfortável pra te contar. Não é algo que eu realmente goste de discutir, mas a minha psicóloga disse que era bom de vez em quando eu falar sobre isso com alguém que não fosse ela.

Se você não sabe o que é um ataque de pânico ou o que é um distúrbio de ansiedade eu vou tentar explicar da melhor maneira possível. Eu não sei exatamente qual foi o gatilho do meu ataque, mas eu tenho as minhas suspeitas. Na época, eu namorava um cara que não era nenhum pouco legal comigo ou com o nosso relacionamento. No meio de muitos abusos e momentos ruins nós nos encontramos em uma festa cheia de gente, muitos estavam bêbados e eu me lembro de não gostar de estar em um lugar tão cheio, com tantas pessoas. Eu acabei irritando ele de uma maneira sem volta, nós brigamos, eu só queria ir embora e aquilo tudo virou um ataque de pânico.

Foi o primeiro que eu tive. Durou das 11 da noite às 5 da manhã, em períodos intercalados de tempo. Eles aconteceram de 5 à 25 min mais ou menos e então eu liguei pro meu pai ir me buscar.

Quando acontece eu nem sempre sei porque está acontecendo, eu realmente não escolho. É o meu sistema nervoso simpático entrando em atividade. É como se meu corpo tentasse decidir entre correr ou enfrentar o problema. Por causa da adrenalina você soa muito, mas está com frio… você também sente arrepios, outra coisa que acontece é formigamento das mãos e dos pés. Claustrofobia. Quando eu tenho um ataque eu tenho que me afastar de qualquer situação que eu esteja. Eu não gosto que as pessoas fiquem na minha volta, eu me sufoco com isso. Os sons e os cheiros ficam mais fortes. Tudo é mais barulhento, perturbador, tudo cheira mal. Eu me sinto bem enjoada. O coração bate acelerado, a garganta seca, falta o ar. Todas essas coisas elas vem e você simplesmente não consegue lidar.

Isso é basicamente um ataque de pânico. Não é muito legal, eu não desejaria ao meu pior inimigo. Não é uma sensação agradável. Com o tempo você acaba evitando fazer coisas que quer fazer e o resultado é que você se deprime. Você acha que não é uma pessoa normal. Eu costumava ficar realmente chateada. Depois de cada ataque de pânico eu me sentia um lixo total. Drenada mentalmente, fisicamente. Mas você tem que lidar com o fato de que isso provavelmente vai acontecer de novo. E isso me impedia de fazer as coisas que eu amava fazer. Essa era a pior parte.

Então, eu comecei a parar de fazer tudo o que eu gostava achando que em qualquer lugar eu iria ter um ataque de pânico. Fui diagnosticado com um distúrbio. Chegou um momento que eu parei de ir a festas, eu não namorei por alguns anos, eu tinha medo de pegar trens, eu parei de ir no cursinho, tudo isso porque meu cérebro achava que se eu repetisse qualquer dessas atividades eu corria um risco que na verdade não existia.

Eu sabia que eu tinha um problema e eu sabia que estava começando a arruinar o jeito que vivia minha vida. Decidi então procurar um médico pra conversar e tem tantas coisas que você pode fazer pra minimizar o ataque de pânico. Existem pílulas pra ansiedade, beta-bloqueadores pra desacelerar o coração, hipnoterapia, calmantes.

Depois de tanto tempo eu aprendi a conviver com isso, eu penso: o que demais pode acontecer? Esses ataques não podem me matar, e com o tempo e com muita ajuda os ataques pararam de acontecer constantemente.

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Written by Bruna Moreno

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento. Escrever é preciso. (Clarice Lispector)

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