bom dia, portugal

Bruna Moreno
4 min readJun 18, 2018

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Hoje eu acordei com um ar diferente, um ar de discórdia no corpo. Como sempre, minha mania incessante de querer fazer uma palavra não significar o que ela uma vez significou. A discórdia vinha de dentro, mas no começo eu não senti.

Ouvi os despertadores dos dois celulares tocarem, exatas seis horas da manhã, mas sabia que era mais um exagero de uma responsabilidade também exacerbada, como muitas coisas contidas em mim, então coloquei na tão famosa soneca. Levantei da cama às seis e meia, ainda com um pouco de sono, porém com uma disposição absurda. Como sempre, o pé direito foi o primeiro a tocar no chão, por causa de uma das minhas incontáveis superstições, seguido do esquerdo, e o sol já estava dando ao quarto uma claridade linda. Esta minha capacidade de deixar a luz entrar azul e fazer a cor dos meus olhos sair colorida. De uma forma ou de outra, sejam as coisas cinzas ou fruta cor, eu sempre dou um jeito de enxergar tudo. O dia estava claro, talvez para muitos nada de excepcional, mas pra mim extraordinariamente belo: era um dia especial.

Era dia de arrumar a casa cedo, dia de tirar três sacolas cheias de lixo, de me alongar, dia de me arrumar, pegar a mochila, descer, colocar o lixo na reciclagem, os fones nos ouvidos e pegar o metrô a caminho da faculdade.

Menos de dois dias atrás eu sai do meu país magoada e segui em frente, como eu sempre faço. Os machucados são todos iguais, tanto os externos como os internos. Uma hora, tudo cicatriza. Mas felizmente tem uma luz interna que nasceu comigo que não me deixa cair. Mesmo quando eu tropeço, ela me puxa pra cima.

Infelizmente, não temos poderes sobre as atitudes dos outros. Temos que simplesmente saber lidar com isso, não temos como escolher o que as pessoas vão fazer e decidir o quão íntegros e honestos vão ser. É assim plantada a decepção.

Se um conselho for útil, se preocupe com uma única coisa: a sua própria luz. Ela vai crescendo e se tornando um escudo inquebrável, absolutamente intocável.

Sim, eu sinto medo ainda, não estou alheia às maldades das outras pessoas, ou estaria me privando de amar, mas nunca vou deixar que isso me derrube, nunca vou deixar que esses erros causem rachaduras na minha fortaleza.

Hoje foi um dia bom, um dia com sol, com luz interna e externa… Senti algo diferente e senti brilhar intensamente, chegando a me perguntar se aquilo tudo vinha mesmo da rua ou era “só impressão”. Mas tudo porque hoje foi um dia de discórdia no meu corpo inteiro.

Discórdia porque eu sou leonina, talvez por ser supersticiosa que eu acredite em astrologia, mas diz-se que uma das principais características de Leão é a somatização… Pois bem… Uns dois dias atrás, enquanto decidia se entrava naquele avião, senti meu corpo inteiro gelar. Meu corpo ficou frio, os pelos de todas as partes ficaram arrepiados, eu senti uma agonia sem fim em cada parte da minha derme e, pra completar, havia uma coisa muito mais profunda que isso… O meu lado direito dizia sim, e o lado esquerdo dizia não, e enquanto isso eu sentia como se fosse rachar ao meio, como se cada parte fosse decolar, cada uma para um lado, o mais rápido possível.

Com lágrimas nos olhos tomei coragem e disse adeus. E de repente, as partes do meu corpo foram se acalmando, pararam de tentar se separar, os pelos voltaram ao normal, a temperatura normalizou, a incerteza deu lugar a outros pensamentos quaisquer, como desenhos ou aulas. Foi isso. Depois de dois dias em solo vizinho hoje me sinto diferente…

Hoje eu desci com três sacolas cheias de lixo na mão. Hoje eu coloquei os fones de ouvido e ouvi músicas que eu não ouvia desde 2009. Hoje eu tive sentimentos EXTASIANTES. Hoje eu estava recém na esquina de casa e notava as pessoas me olhando, porque eu não estava só sorrindo, como rindo! Eu tinha os pelos das pernas, dos braços, da nuca e das costas, até da barriga, arrepiados, mas a temperatura corporal era outra… Eu sentia meu sangue correndo quente, como se estivesse a quarenta graus, mas não sentia calor. Eu sentia prazer a ponto dos olhos estarem úmidos.

Hoje foi o primeiro dia, também, que não usei mapas em Porto, e o primeiro dia que não me perdi em nenhuma rua. Eu estava no lugar certo, na hora certa, eu era a pessoa certa para estar ali, e eu sabia o que eu queria e quem eu era, sem sombra de dúvidas. Meu corpo, minha alma, meu coração, tudo entrou em discórdia com o que eu estava sentindo por causa de outras pessoas. Meu corpo rejeitou a tristeza, meu corpo não quis mais a incerteza que plantaram em mim.

Todas as coisas dando certo, foi o que eu senti, o melhor sentimento do mundo. Senti meu pais perto de mim, senti como se sempre estivessem estado aqui, como se estivessem me esperando. Mais do que nunca, sei sobre mim. Senti alguma coisa diferente, e foi ótimo. Pela primeira vez, após uma longa briga interna, eu me senti feliz. Mais que em qualquer outro momento.

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Written by Bruna Moreno

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento. Escrever é preciso. (Clarice Lispector)

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