eu não tenho mais medo
Eu sempre tive uma relação muito libertária com os meus pais. Eles sempre me ensinaram que relacionamentos e sexualidade podem ser conversados de uma maneira mais leve. E há um bom tempo que eu não consigo ser verdadeira com eles. Ainda é difícil pra mim falar abertamente que eu passei por uma situação da qual eu nunca imaginei que seria capaz de passar. Da qual até um tempo atrás eu fingia que não tinha existido: O relacionamento abusivo.
Escrever a verdade sobre o que eu vivi primeiramente me obriga a ser sincera comigo mesma e com todas as mulheres que passam por isso e se sentem fracassadas como eu me senti, e segundo, conscientizar de uma vez por todas que abuso psicológico e relacionamento abusivo é o primeiro passo pra violência doméstica. O primeiro passo pra violência física.
É importante falar que um relacionamento abusivo começa de uma forma muito sútil. Normalmente eles te acham em um momento de fragilidade e então começam a te idolatrar. O abuso não começa com o tapa na cara. O relacionamento abusivo começa lindo. A pessoa te adora, fala que você é forte, que você é uma mulher empoderada, que você é uma mulher incrível e aos poucos a gentileza vai se perdendo no meio de algumas dicas de como você poderia se comportar melhor, por exemplo.
Comigo, ele dizia: “Fala menos palavrão”.
Eu lembro muito bem do primeiro sinal. Ele aproximou o dedo indicador dos lábios e fez “Shiiii, aqui não é lugar pra você falar alto”. Foi de um você não pode falar alto, pra você não pode postar na internet sobre feminismo. Foi de controlar o volume da minha voz, até controlar o que eu falava nas redes sociais.
No começo ele incentivava: “Coma comidas diferentes, experimente mais”. E então chegou o dia que eu ouvi “Eu não vou nunca mais comer perto de você porque você não respeita a comida”. Isso tudo porque eu tinha deixado garfo e faca, no final da refeição, em posições não paralelas. Ele meteu a mão no meu prato e falou “Você não tem respeito pela comida e é por isso que eu não como com você, é por isso que eu não cozinho pra você, é por isso que eu não saio pra jantar com você. Porque você não tem educação”.
Ele foi de: “Poxa, eu tenho dificuldade de entender os seus ataques de pânico, porque eu não tenho nada parecido”.
Para: “Você é a mulher mais fraca que eu já conheci, eu tenho certeza que você nunca vai melhorar e eu não quero uma mulher doente do meu lado”.
De falar que eu deveria praticar mais exercícios porque ele se preocupava com a minha saúde, pra “desde que a gente se conheceu você só engordou”.
Ele tentava controlar o que eu achava de mim, o que eu achava dos outros, principalmente o que eu achava de outras mulheres. Ele tentava controlar o que eu achava dos meus amigos e o que eu podia falar com eles.
Ele me proibiu de falar sobre ele e o nosso relacionamento pra minha mãe. Eu fiquei meses afastada da minha família porque todas as vezes que eu olhava pra minha mãe ela me perguntava “Está tudo bem filha?” e eu não podia falar que não tava. Eu era proibida de falar o que eu passava dentro de casa.
Ele fazia com que eu me sentisse a pessoa mais burra do mundo. A pessoa mais fraca do mundo. Ele fazia eu me sentir errada todos os dias da minha vida. Não existia um dia que eu não fazia algo extremamente errado. Quando eu saia com ele na rua, era ruim. Quando ficávamos apenas nós dois, era pior. Eu fui desenvolvendo um medo crônico de fazer qualquer coisa, de tomar decisões. Passei meses com dificuldade de sair na rua, de sair com meus amigos, conhecer pessoas novas. Porque eu simplesmente tinha pavor. Porque eu sabia que novamente ele ia indicar todos os meus erros e defeitos. Que eu era uma pessoa ruim. Que eu era uma pessoa inconveniente. Que eu era uma pessoa insuportável.
Até hoje eu escuto do lado dos amigos dele que eu inventei essa história. Que eu engordei pra ganhar seguidores. Sendo que eu vivia com uma pessoa que constantemente controlava o que eu comia, controlava o meu peso, fazia com que eu me sentisse extremamente inútil por simplesmente não conseguir fazer academia porque eu estava em depressão profunda, querendo me matar todos os dias.
Depois de tudo isso, eu realmente engordei. Depois de ir pro hospital com uma costela quase quebrada eu realmente engordei.
Chegou no ponto em que eu simplesmente não aguentava mais. Eu não aguento mais. Por que pro mundo a gente tem que se mostrar o tempo todo bem, feliz e as pessoas não fazem a menor ideia do que se passa dentro de casa. Então quem via as fotos achava que estava tudo bem, mas não estava.
Quando eu perguntei se ele ainda me amava eu ouvi da boca dele as seguintes palavras: “Eu te odeio. Eu só estou com você porque eu gosto da sua família e porque eu tenho medo de você me expor na internet”.
Eu. Te. Odeio.
Vocês acham que eu terminei o relacionamento? Não! Ele me deu um ultimato de um mês para eu melhorar da depressão porque afinal de contas ele não queria uma pessoa que estivesse o tempo todo doente do lado dele.
O abuso que eu passei, não fui a única. Eu conheço no mínimo três. Mas só a partir do momento que eu não era mais proibida de falar sobre esse assunto com as pessoas que eu comecei a entender o que eu tinha passado. Então é obvio que ele não queria que eu falasse com ninguém. Ele sabia o que estava fazendo.
Eu cheguei no ponto de falar pra um amigo que mesmo ele me batendo eu não o denunciaria pra ninguém. Eu cheguei a um ponto em que deixei a minha vida na mão dele. Me tornei tão dependente da opinião dele sobre mim que a minha vida dependia dele. Cheguei a um nível de dependência psicológica muito grave e a culpa era minha. A culpa era sempre minha.
Tive brigas homéricas com crise de ansiedade, de cair no chão me tremendo por assuntos idiotas como um garfo e uma faca no prato. Ele me fazia sentir a pior pessoa do mundo por simplesmente falar. Por simplesmente ser eu.
Eu tive muito medo. Até uns anos atrás eu não conseguia sair na rua com medo de encontrar ele. Mas a partir do momento que eu comecei a falar do assunto eu comecei a me unir com outras mulheres que passaram exatamente pela mesma coisa. A partir do momento que eu comecei a falar eu parei de ter pesadelos grotescos. E finalmente eu parei de me culpar. Porque a partir do momento que eu falei, eu consegui entender que a culpa não foi minha. Nada justifica o jeito em que eu fui tratada.
Ele tirou algo de mim. Tirou pedacinhos de mim. Pedacinhos, ao longo do tempo tão pequenos, que eu nem notei… Ele queria que eu fosse algo que não era e eu me transformei naquilo que ele queria.
Eu não sou a pessoa mais fraca que eu conheço. Eu vou superar sim minha ansiedade e eu vou arranjar alguém que me ame e que fique do meu lado porque ama quem eu sou. Eu vou conseguir gostar de alguém de novo. Eu não tenho mais medo de você.
Eu não tenho mais medo. Eu não me culpo mais. Eu nunca mais vou abaixar a minha voz.