#metoo

Bruna Moreno
2 min readJun 30, 2018

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Eu dizia que não precisava de ajuda, mas era mentira. Estava mentindo para mim mesma e para todos ao meu redor.

Houve um jantar com os colegas dele. Conversei demais com o cara sentado ao meu lado. Ele disse que eu o fiz de idiota. Eu ri, porque soou tão… Eu ri. E os olhos dele escureceram e essa foi a ultima coisa de que me lembro antes de acordar na manhã seguinte com o olho inchado. Achei que seria a única vez. Mas ele ficou mais esperto. Certificou-se que ninguém visse os hematomas. Ele pedia desculpas e dizia que era minha culpa. Tudo ao mesmo tempo. Era tão persuasivo.

Ele me disse que estava errada tantas vezes que eu acreditei. Ele disse que eu era louca tantas vezes que eu acreditei que realmente era louca. Na última vez, acordei com ele me chutando por trás porque ele leu meus e-mails e viu o nome de um garoto que não reconheceu. Ele me chutou tão forte que quase quebrou minhas costelas.

Acreditei em tudo o que ele me contou. E eu sou inteligente! Uma feminista! Nunca achei que acabaria em algo assim. Aconteceu tão devagar. Parei de falar com colegas, amigos que ele não gostava. Minha família não entendia. Ficaram preocupados. Então ignorei-os e parei de falar com eles também. Meu círculo foi ficando cada vez menor, até que só me restava ele. Eu parei de acreditar em mim mesma, coisas que vi e ouvi, coisas que eu sabia, porque ele disse que estava ficando louca e eu acreditei.

Ele me conhecia tão bem. Ele pegou a insegurança, criou um argumento e mudou tudo. E de repente é minha culpa. Minha de novo. Sempre sou eu a errada.

Quando ele começou a me bater, foi só uma surpresa. Ele disse que era minha culpa, eu realmente acreditei nele. Como eu acreditei nele?

Ele era bom pra mim no começo. E nos dias bons uma parte retorcida de mim ainda o amava. Mas nós não somos idiotas. Não nos apaixonamos por quem nos bate. Nos apaixonamos por quem nos faz rir, nos faz sentir querida, amada e vista.

Ele era brilhante, charmoso e persuasivo. E o bom compensou o mau, até parar de compensar.

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Written by Bruna Moreno

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento. Escrever é preciso. (Clarice Lispector)

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