e continuamos sendo

Bruna Moreno
3 min readJun 16, 2018

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Apesar da gente nunca ter namorado ou feito planos, hoje completamos 3 anos. Se nosso primeiro encontro não tivesse se dado numa data tão conhecida, eu jamais saberia. Nunca contamos o tempo ou demos nomes aos nossos sentimentos. Simplesmente tudo se desenrolou sem conjecturações ou vingança. Foi e foi. Aquilo que dizem sobre o que é pra ser. Simplesmente fomos e continuamos sendo.

Quem diria que um dia eu seria feliz a ponto de não contar ou reduzir sensações a palavras? Mas é isso, sou feliz do seu lado. Sem esforço e mesmo sendo, muitas vezes, bem infeliz. Sou feliz.

Daqui, consigo imaginar você acendendo seu cigarro de domingo e me olhando sabendo que, inexplicavelmente, justo eu, te aceito seja lá como for. Você, idem. Não fomos fáceis a nada e nem a ninguém, mas cá estamos. Sem a comemoração deslumbrada e terrivelmente curta e por isso mesmo podendo celebrar o pouco cabível de cada instante. E por isso mesmo, vai ver, nos amando.

Sabemos tanto que é amor que nem parece aquele coisa que dizem: A-m-o-r. Ah, deve ser. Mas não o que um dia quisemos tanto e por isso mesmo afastamos, mas o que podemos e por isso mesmo nos soa tão possível. Sei que parece óbvio, mas só agora.

E eu continuo nessa pose querendo apenas uma tarde com você pra comemorar nossos 3 anos. Seu ombro que eu curto tanto desde o primeiro segundo. Seu cabelo prateado acusando uma idade que você não tem. Nossas conversas que podem durar horas. Suas pintas nas costas (eu passei duas horas contando todas elas enquanto você dormia). A sua mania de entregar um pouco mais do que permitido.

Minha avó sempre dizia que encontrar esse tipo de ligação é raro, que só acontece uma ou duas vez na vida.

Então hoje, completamos três anos e eu só queria um presente. Voltar no tempo, me encontrar e chacoalhar meu corpo. Aquela época em que eu já estava quase cínica, mas ainda acreditava com todas as forças do mundo. Porque quanto mais cinismo e cansaço, mais força fazemos e mais forte parece. Eu queria me chacoalhar e dizer que ele existe, sim, o tal do amor, mas você, querida, não sabe ainda nada disso. Isso que você acha que é amor, menina, não passa nem perto.

Eu me faria uma visita naquele apartamentinho pequeno e cheio de tentativas de charme e maturidade. E diria pra mim o que ninguém, sabe-se lá porquê, foi capaz de me dizer numa época tão necessária e quase triste. Época de tentar de tudo pra chegar perto do que, um dia, simplesmente acontece.

Eu diria: menina, você vai aprender que existem diferentes tipos de amor e amar a dúvida, o silêncio, a ingratidão, o fim, o atraso, a invenção, a lacuna, o pode ser, as hipóteses, a não resposta, a raiva, o absurdo, o não, a impossibilidade, o depois que foi, o antes de chegar, o difícil, o pode não, amar essas coisas, menina, é amar o mistério. Amar um homem não é o telefone que não toca, é o telefone que toca e ele tá daquele jeito que te irrita justamente porque ele é calmo demais e vocês se implicam e depois morrem de rir. Ah, e aí vai dando certo.

Foi e foi e foi e cá estamos. Você apaga o cigarro de domingo, a luz e some por um instante. Eu escrevo esse texto na mente, tomo banho e me chacoalho. Daqui a pouco a gente, sem se dar conta de plurais e segredos, se encontra por aí e decide o que faz.

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Written by Bruna Moreno

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento. Escrever é preciso. (Clarice Lispector)

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